terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Fui 2014. Hei-de ser 2015.


2015...  um ano que certamente vai ser diferente para mim. Não vou criar muitas expectativas porque sei que nunca nada é como planeamos. Em segundos, conseguem trocar-nos as voltas e tudo o que tínhamos em mente até ali foi pura perda de tempo. Não estou a dizer que não devemos pensar o futuro... não é isso! Mas há coisas que podíamos muito bem dispensar do nosso pensamento. E é isso que é difícil para mim - largar pensamentos.

2014 foi, para todos nós, um ano bom e um ano mau. Acontecem coisas melhores que outras... é mesmo assim.

Foi em 2014 que entrei na Faculdade, onde queria e no curso que queria.
Foi em 2014 que provei o sabor de ser caloiro.
Foi em 2014 que fui praxada.
Foi em 2014 que fiz muita figurinha à frente de muita gente, mas que não estava nem aí, porque o importante estava na nossa diversão e companhia, tudo o resto não interessava a ninguém.
Foi em 2014 que comi duas fatias enormes de pizza, sentada na calçada da Praça da República, ansiosa por saber quem seria a minha madrinha.
Foi em 2014 que fui baptizada pela minha madrinha e pelas minhas pseudo madrinhas. Foi neste dia que chorei e chorei de alegria.
Foi em 2014 que tomei banho de água fria.
Foi em 2014 que andei com luvas e gorro, com um sol infernal no dia da Latada.
Foi em 2014 que vagueei pelas ruas de Coimbra com latas agarradas aos pés, a «mendigar» para o jantar com as madrinhas.
Foi em 2014 que comi nabos crus e logo de seguida rebuçados.
Foi em 2014 que aprendi a deixar a vergonha em casa e a cantar, dançar e gritar com toda a minha força pelas ruas de Coimbra.
Foi em 2014 que fui a jantares sem fim, em restaurantes que acabavam surdos, por cantarmos e gritarmos tão alto as músicas do nosso curso.
Foi em 2014 que fiz amigos para a Vida.
Foi em 2014 que me apaixonei pelas Tunas e pela magia que espalham.
Foi em 2014 que conheci gente sem fim.
Foi em 2014 que aprendi a viver por minha conta.
Foi em 2014 que não tive tempo para respirar. Foi em 2014 que me faltou o ar.
Foi em 2014 que alguns problemas surgiram...
Foi em 2014 que me ajudaram e ainda ajudam a dominar o medo e a ansiedade...
Foi em 2014 que me disseram e escreveram para nunca deixar de sonhar, pois nada é «mais nosso e necessário do que as possibilidades de amar e de sonhar»!
Foi em 2014 que me deram as mãos e me sorriram com Vida.
Foi em 2014 que me ofereceram palavras que me fizeram chorar e abraçar com saudade antecipada.
Foi em 2014 que conheci a família que tenho em Coimbra.
Foi em 2014 que dei por mim a amar uma (c)idade que tenho medo de perder.

Será em 2015... que continuarei encantada por Coimbra, a minha nova casa, o berço da minha alma.
Será em 2015 que ... ?

Um bom ano de 2015!

Psicologia


Uma outra área que me tem vindo a suscitar cada vez mais interesse é a Psicologia. Tenho uma cadeira este semestre (Psicologia do Desenvolvimento) e terei outra para o próximo (Psicologia das Relações Interpessoais, se não estou em erro) e estou a adorar! Também tive Psicologia no Secundário, mas só a meio do ano é que nos dedicámos à Psicologia em si, pois tivemos de dar as bases biológicas no início (é óbvio que esta matéria deve ser adquirida previamente para poder prosseguir o estudo...), daí a minha curiosidade ter despertado posteriormente. Para além disso, tenho livros da minha avó, os quais posso considerar umas belas relíquias. 

É a que me dá mais gozo estudar. É como estudar Português... algo incrivelmente fascinante. Não tenho palavras! É um mundo tão natural e tão desconhecido. Está dentro de nós o mistério que procuramos incansavelmente. A origem e desenvolvimento de certas e determinadas patologias é algo que sempre me acendeu aquele bichinho da curiosidade. A esquizofrenia (um tema que abordei no ano passado), por exemplo, é uma realidade ainda tão incompreendida, tão discriminada! 
...
Podia estar a noite toda a comentar casos e até filmes bem conseguidos sobre estes assuntos, mas só conseguiria parar amanhã à noite, por isso fiquemos por aqui!

Talvez num dia em que tenha mais tempo publique qualquer coisa em específico.

Fisioterapia


Esta profissão está a fascinar-me cada vez mais. Nos primeiros dias de aulas, todos os nossos professores e colegas tudo fizeram para que nós, os caloiros, percebêssemos o impacto que podemos ter na vida de alguém. Ficava completamente deslumbrada a ouvi-los falar das experiências que já tiveram ao longo da sua carreira profissional, das lições de vida que esta área lhes(/nos) proporciona(rá) e das grandes marcas que ficam num Fisioterapeuta. 

Apesar de a Fisioterapia actuar ao nível da prevenção e promoção da saúde, da investigação... não deixa de me fascinar a que é a mais conhecida pela generalidade das pessoas - a Reabilitação. Engloba sempre um conjunto de pessoas que sofreram alterações nas suas vidas e que, ao longo deste processo, nem sempre aceitam a condição em que se encontram. São situações muito delicadas, nem sempre fáceis de contornar, exigindo por isso, da parte do Fisioterapeuta uma grande capacidade para entender todo aquele mundo que pertence a quem é tratado por ele. 

Cada pessoa tem as suas fraquezas, as suas angústias, as suas limitações (quer sejam de ordem física, psicológica ou até mesmo financeira), mas também cada uma delas tem os seus pontos fortes, os seus talentos e as suas inspirações. Há que ter em conta toda a personalidade desse alguém que se apresenta perante a nossa pessoa. Há inúmeras formas de resolver um problema e há que adequá-las às características desse alguém. Sobretudo, ter sempre em mente que as necessidades e possibilidades são diferentes em todas as pessoas.

Fisioterapia é mais do que uma profissão. É (aprender a) ser Humano!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Aniversário de Aguarela


Há um ano atrás, com as clássicas resoluções do novo (agora «velhinho») ano, iniciei este blogue, não sabendo ainda muito bem o que me esperava... O que é certo é que estou ainda a aprender a partilhar com amigos as minhas palavras. Fico sempre muito nervosa quando vejo alguém a ler o que escrevo, talvez por dar demasiada importância às palavras. Preciso delas. E preciso também de as partilhar.
Disse-lhes que tinha criado um blogue e deixei-lhes o link, caso o quisessem visitar.
Por vezes, comento com uma amiga algumas palavras e recebo críticas e sugestões para este pequeno mundo.

Há alturas em que não apareço muito por aqui, maioritariamente por falta de tempo. 

Não fugindo ao assunto pelo qual hoje aqui me pronuncio, quero deixar nestes arredores desejos de um 2015 cheio de paz, muita paz, saúde, pessoas dignas da nossa amizade e especialmente aquilo que hoje falta a muita gente - a força e vontade de sonhar!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Estás-me de volta


Estás-me de volta! Consigo ouvir o silêncio outra vez... Olho para as janelas e vejo árvores verdes e vivas que dançam harmoniosamente. Consigo sentir os ponteiros do relógio a hesitar... e consigo ouvir o teclado tocado pela senhora da Biblioteca. Vejo um vazio enorme dentro de mim. Estás-me de volta. Aquela apatia e desinteresse por qualquer coisa... És tu. Eu sei, sinto-o! Odeio-te, mas não quero que saias de mim.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Saudades de uma história que não é minha


Vejo inúmeras fotografias da minha tia. Não sei o que pensar, nem o que dizer. Fico sem palavras ao olhar para aquele passado tão dela, mas que preenche este meu pedacinho de presente.
Naqueles dias, eu nem era sonhada na mente dela. Sei que era feliz da maneira como vivia. Consigo senti-lo pela expressão que tinha.
Tudo nela me parece perfeito: os olhos brilhantes e cheios de vida, as mãos pequenas e delicadas e o cabelo solto, natural, misterioso... Olho para ela e vejo alguém que me inspira, que me dá alento e que, acima de tudo, sorri quando me vê! Faz-me sentir segura e amada. Faz-me ser criança outra vez!
Há pessoas que deviam saber o quão importantes são para nós. Apesar de tudo o que lhes dizemos e fazemos, parece-nos sempre que é insuficiente para lhes conseguir explicar este sentimento tão forte, tão (e)terno que temos por elas. Não consigo demonstrar, de forma lógica, aquilo que sinto. Assim como não consigo descrever o que sinto quando alguém me abraça, também não consigo descrever este amor.
Amo-te como se fosses minha mãe. Só te quero ver feliz!
Todas as tias deviam saber o quanto são amadas, porque todas elas amam os sobrinhos como se fossem os seus filhos. Eu sei disso, tia! Tu é que tomaste conta de mim. Tu é que viste o meu primeiro dente de leite cair. Não foste uma ama. Foste uma mãe!
Para todas as tias... um obrigada do tamanho do mundo, do fundo do coração, por serem as mulheres que nos amam incondicionalmente, sem sermos filhos delas!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quando te tiram o mundo


Querido...
Primeiro de tudo,confia em ti!
Confia em ti porque precisas disso e, se não confiares em ti, como cativas a confiança do outro?
Confia porque te tornas VULNERÁVEL! Pode ser bom. Pode ser mau. Mas tens de acreditar que o mundo foi feito para nós e é um desperdício viver só! Fomos feitos para acreditar, para ter fé. E só assim poderás afastar a solidão triste que acompanha a desconfiança!
Confia porque terás motivos para sorrir e para fazer sorrir.
Confia porque será um gesto muito teu, muito importante, para fazeres crescer um jardim no teu coração.
Confia porque aprenderás a voar sem asas.
Confia porque aprenderás a ser Humano.
Confia porque quem confia é mais feliz.
E se correr mal (porque pode correr), não feches os olhos... Acontece o que tem de acontecer por algum motivo. Não julgues o resto do mundo porque UM te fez acreditar que não valia a pena!
Eu sei que quando te tiram o mundo, ficas sem chão, sem onde pousar os pés.
Perguntas ao Inverno por que é ele tão frio em ti! E ele, de tão gélido que é, não te responde e ainda te pisa os dedos já feridos.
Não consegues perceber a razão de todo o abismo que se instala repentinamente. O resto não importa e só queres deixar de viver. Com o mundo em cima de ti, vês-te sozinho e não te consegues levantar.
Pensavas que, se não fosse para amar, nada valeria a pena. Hoje, fizeram-te acreditar que o que não vale a pena é amar. E é tão triste pensar assim! É tão triste estar triste!
O que eu dava para te dizer que estou aqui para ti! Que te amo, independentemente do que possa acontecer amanhã, quando virmos o sol.
Disseram-te para não te agarrares tanto às pessoas. Tentaste, mas não conseguiste! É inevitável, eu sei! Para onde quer que vás, terás necessidade de te prender a alguém. De agarrares alguém com a tua vida. É humano precisares de um pilar. De um alicerce que te sustente os pés quando perdes a força e cais.
De tanto andares, parece-te que já não é fiável ter alicerces, porque também eles podem cair ou, no pior dos casos, serem eles mesmos a derrubarem-te, por mais inacreditável que te parecesse até então! Aí, perdes o poder de confiar. Quando perdes isto, perdes o mundo. Quando te tiram isto, tiram-te o mundo. Mas as coisas acontecem e todos erramos!
Por isso te peço, meu doce, que não deixes de acreditar. Não deixes de acreditar que faz bem acreditar. Nunca!
Quero que sejas feliz na tua linda e longa vida. Quero que um dia digas que valeu a pena e que acredites que amar é de facto o que te faz continuar por aqui! E que, se não fosse para amar, tudo seria em vão!
Pois agora digo-te eu (e isto vale o que vale) que, por mais impensável, por mais impossível que possa parecer, há sempre alguém em que mereces confiar.
Hoje, não te escrevo palavras bonitas nem organizadas. Mas escrevo-te com esperança de que acredites!
E acredita, meu amor, que a vida é tão mais bonita quando confias! A vida é tão mais bonita quando tens alguém ao teu lado!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Escrevo-me

Máquina de escrever do meu avô - Olivetti STUDIO 45
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Estou aqui. 
Sentada a escrever, no quarto habitado pelo Inverno... lembro-me de mim. As memórias escurecem. O papel está a conhecer-me.
Levo horas para encher toda uma folha. Penso e sinto e escrevo. Penso e sinto e escrevo.
As minhas mãos segregam a seiva que a folha, pálida e fria, necessita para viver. Os meus dedos, ansiosos por recordar, tremem ligeiramente na caneta macia.
Escrevo-me.
Letras pretas caem por fim onde têm de cair. Amarguradas algumas, indiferentes outras... mas sempre esperançosas as do presente! Porque se não fosse para continuar, o Sol já havia deixado de nascer para toda a Terra há muito, muito tempo.
Agora, estou no papel, em tinta, em aroma que flutua na história. Na minha pequena, pequeníssima história. Na minha insignificante história.
As palavras trouxeram-me magia. Sem querer, caí com elas num poço de segredos e mistérios. Fiquei!
Escrevo-me para continuar. Para amanhã sorrir com a aurora e descansar com o crepúsculo. Outra vez e outra vez! Para amanhã conseguir dizer Amanhã!

Onde estás, poesia?


Está aqui... e aí ao mesmo tempo!
Está em todo o lado. 
Bem cedo, na beleza da aurora. No nevoeiro que nos envolve e nos aconchega. Na chuva, agressiva e cinzenta. No vento que passa por nós no Inverno e na brisa que desliza connosco no Verão! Na mares
ia encantadora. Nestas areias lusitanas!
Aqui, onde estou. Aí, onde está!
No ar que respiramos quando pensamos nas palavras, no ritmo, na música. No silêncio. Até me parece que há algo de poético na ausência da poesia. (Mas estaria a contradizer-me porque afirmo que ela está sempre em todo o lado...).
Na luz efémera que não vemos das nossas almas.
Na Saudade!
Nas suas palavras. Em si! Em nós! No Mundo e no Amanhã!


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Caçadora de gritos


Só me apetece gritar em cima das costas do mundo e roubar-lhe o vento... Saltar para o seu dorso, fechar os olhos e ouvir-me a gritar. A soltar a minha voz, a vós! Pedir à minha estrela que me abrace e me ajude a amanhecer, no dia seguinte.
Estou cansada. Sinto-me morta por dentro e por fora. Mas a verdade é que há qualquer coisa cá dentro que ainda não morreu. Vive, calada e escondida, à minha espera! Com a leve, ténue esperança de que eu volte. De que eu continue. De que eu viva outra vez.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Que seja eu em prosa! Ou em poesia!

Do muito que tenho escrito em Coimbra
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Esta noite vou escrever até cansar as palavras! Vou escrever até não poder mais, até os meus dedos implorarem por repouso. Vou escrever sobre mim, sobre a chuva, sobre a cidade, sobre os outros e sobre mim outra vez! 
Vou ficar acordada à espera dos pensamentos, das memórias e quimeras. 

Pela primeira vez, vou escrever para mim e para o meu sonho! Que seja espontâneo aquilo que cair com tinta sobre o papel. Que seja verdadeiro e não apenas mais (um pedaço de) uma história mais ou menos inventada... Que seja eu em prosa! Ou em poesia! Mas que seja eu. 

Depois de o escrever, lê-lo-ei. E aí será como ter um espelho à minha frente.Ver-me com os meus olhos, mas através de palavras! E sei que aquilo que penso que vou ver é totalmente diferente daquilo que realmente vou ler e deveras diferente daquilo que os outros vêem em mim! Mas não me vou importar! Preciso de saber o que penso, como penso e porque o penso! Só assim me posso conhecer.

Esta noite vai ser assim até que a alvorada me faça parar. Esperarei pelo nascer de uma luz que me acorde deste sono que é meu! 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

E é a amar assim...

Março de 2013
(Fotografia da minha autoria.)
E é a amar assim que me enterro na perfeição da felicidade. Sem ti eu não seria mais do que um daqueles corpos que vagueiam pela sombra dos outros e fazem do tempo um passatempo ridículo e inútil! Seria alguém sem uma pessoa dentro desse alguém! É a amar assim que consigo viver cada dia como vivo, sorrindo para o dia e para a noite, guardando o sol no meu bolso e acolhendo a chuva no meu regaço. 
Vim, sozinha, só contigo no mítico segredo do coração humano. Só contigo!
Estou aqui, hoje, novamente só. E tu, apesar de ausente, roubas-me a memória!
É a amar assim que pinto e escrevo a minha pessoa e a minha caminhada. É assim que faço de mim quem sou. Não és tu que me moldas. Não sou barro! Mas é a visão que me dás de ti que me faz amar como amo. 
Há voar e voar... Há voar e amar. 
Ensinaste-me a voar, quando as minhas asas ainda não tinham penas e quando a vida para mim era inquestionável. Aperfeiçoaste as inúmeras falhas do meu vôo, cheia de paciência abençoada. Falhaste! Foste o meu molde, mas falhaste! Mas descansa, porque todos falham! Falhaste ao mostrar que eu era capaz de tudo, se acreditasse! E era mentira. Eu não sou capaz de tudo, muito menos de acreditar. Acreditar que o impossível e o impensável podem acontecer é absurdo. Falhei. Falhei numa proporção infinitamente maior que tu! Tu não me devias ter feito acreditar em sonhos e eu não devia ter acreditado na sua existência. Ambas falhámos a acreditar com amor e já não há nada a fazer! O passado está passado e o futuro está a nascer neste preciso momento. E agora sim, ACREDITO que sou eu que o faço, apesar de tudo o que já aconteceu! Aprendemos que acreditar com amor não é correcto. Há que acreditar no mundo do possível com a nossa maior vontade de o concretizar!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Adeus


Digo-te adeus agora
Porque tenho de crescer
E chegou a hora.

Tenho de saber viver
Com os adeus porque
Eles fazem parte deste
Sopro alheio que respiramos.

Já te prendi comigo
Demasiado tempo!
Não percebi que tinhas
De ir. De partir.

Estavas comigo o tempo
Todo e não me dizias que era
Hora. Hora de esperares por
Mim lá onde tens de esperar.

Lamento ter demorado
Tanto tempo para te
Libertar deste peso que é
A minha vida para ti!
Assim, de ti me despeço,
De ti me separo de vez!
Adeus!
Adeus!

sábado, 1 de novembro de 2014

O preto também é uma cor


Hoje, digo que Coimbra foi a melhor coisa que me aconteceu!
Fez-me sentir bem comigo. Não me lembro da última vez que cantei, que gritei, que ri e que sorri de cabeça erguida. Não me lembro de o conseguir fazer, sem pensar no resto. Não me lembro! Afinal, é possível «esquecer» o nosso negro com a ajuda dos que se tornaram nossa família! Mas aquele negro escuro e frio que estava sempre comigo foi desaparecendo e dando lugar a um preto suave e morno que se deixa clarear e formar outras cores. Estou cá há pouco mais de um mês e já não consigo imaginar como seria a minha vida se estudasse noutra (c)idade qualquer. Provavelmente, continuaria igual ao que fui sempre.  Não falemos disso... É passado, é para esquecer.
Hoje, sinto-me uma nova pessoa. Sinto que (re)nasci. Foi Coimbra que me deu à luz!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preciso de chorar


Setembro de 2014
Preciso de chorar.
Parece que tudo na vida acontece de modo incompreensível. Não consigo perceber por que é que agora, precisamente nesta fase em que precisaria de estar mais descansada e concentrada, surgem as verdades, que eram antes metades, mas que agora não são apenas verdades inteiras. São problemas inteiros! Problemas sérios! Problemas que fingia não existirem nos últimos três anos. Passei três anos a mentir-me. A saber que estava a mentir a mim mesma. Mas continuei...
E hoje, a vontade das minhas vontades é fugir e é chorar e é gritar em silêncio no meu quarto. É abraçar-me sentada no chão frio. Quero «desaparecer» e nunca mais voltar.
Avó, ajuda-me. Sinto tanto a tua falta! Lembro-me cada vez mais de ti e tu já estás tão longe há tanto tempo. Já não te sinto comigo, como antes! Preciso de ti, da tua voz de avó e das tuas cantigas!

«Uma gaivota voava, voava,
Asas de Vento, Coração de Mar...»

Chora comigo, avó! Abraça-me com os teus braços sábios e quentes!
Quero gritar «Volta!», mas sei que é inútil. Quero a tua companhia. Quero ver-te a sorrir.
És tu quem está mais perto de mim, e mesmo assim... é de ti, de ti, quem eu sinto mais falta!
Perdoa-me!

sábado, 18 de outubro de 2014

Cantar por aqui


Estamos a preparar-nos para ir a mais uma actuação da Tuna!
Há entusiasmo escondido no hábito! São tantas as vezes que se vêem estudantes a cantar... mas não deixa de ter o seu encanto! Jamais! É um momento sempre tão cativante, tão cheio de alegria! Digo convicta que é um momento realmente vivo. Um momento de vida! Para nunca esquecer...
Sair de casa e deixar tudo lá! Levar o corpo e a alma para ouvir aquelas canções aquecedoras de corações estudantes! Levar o nosso sorriso para espalhar a nossa essência e a nossa voz para pintar a música.
No Auditório da Faculdade, vozes imensas cruzam entre si, formando um emaranhado incompreensível. Aquele ruído de fundo que nos leva por momentos a reflectir sobre tudo. Tudo, tudo! A ansiedade criada pela espera daqueles momentos que nos deixam realmente felizes chega à nossa pessoa! E ali ficamos, a aguardar pelo vento de melodia eterna.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

(En)Cantos de Coimbra


Antes de mais nada... Música!
Sons tradicionais que voam pelo ar de Coimbra. Pessoas vestidas de negro, com o seu traje académico. Negro predominante... Nunca gostei tanto de preto como agora. Admiro-o e quero tê-lo colado a mim, juntamente com uma felicidade que todo o estudante de Coimbra veste. Quero Coimbra!
Ontem sabia que Coimbra existia. Hoje, sei que respiro Coimbra e por isso vivo Coimbra. Amanhã, sentirei já saudades desta «cidade dos doutores» e «cidade dos amores».
Pergunto às ruas e avenidas por segredos remotos... e não obtenho resposta. Talvez por não ser esse o objectivo... Talvez sejamos nós o segredo dos segredos escondidos na calçada antiga e sábia. No entanto, há uma brisa matutina que me beija o rosto e me sussurra qualquer coisa, mas que nunca entendo... porque não são palavras. São pedaços de memórias que vagueiam por lá...
Com o tempo, hei-de conseguir desvendar esses sussurros que me dão alento e vontade de continuar. Hei-de perceber se é a cidade que de facto é imortal e encanta todos os seus visitantes ou se é apenas a História que faz dela o mito que Hoje permanece no «peito ilustre lusitano»...
As ruas clássicas e inclinadas parecem não ter fim e as paredes gastas, sujas, mas vivas conhecem mais lendas e outras histórias do que qualquer outro alguém.
Não sabia que era possível ter tanto amor a uma cidade... Mas é! E ainda bem. Que bom que é ter um segundo berço - o da alma. Nasci em Torres Vedras, o meu corpo é de lá... mas a minha alma, essa, ficou parada no tempo quando CONHECEU Coimbra... Tanta cultura, tanta beleza! Sinto-me segura! Também não sabia que era possível sentir-me «em casa» tão longe do meu verdadeiro lar. Mas senti-me bem!
Espero, honestamente, conseguir manter este espírito vivo e com a chama da felicidade acesa ao longo desta que me parece ser uma das mais belas jornadas da minha vida.
E assim dou início a mais um caderno de escrita... o seu nome está ainda por definir mas penso que este («(En)Cantos de Coimbra») parece adequado!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Encontrar-me comigo

Agora, como alguém me disse, é preciso aproveitar as asas e voar em direcção aos sonhos, vencendo os ventos fortes!
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Vou descobrir o meu mundo. Por ruas de cidades clássicas visitarei todos os alfarrabistas que encontrar. Com uma máquina fotográfica sempre comigo para registar os momentos mais marcantes que um dia recordarei com nostalgia... Um caderno e um lápis, materiais indispensáveis para mim, servem para não deixar fugir as palavras apressadas que chegam das experiências fantásticas e insistem em partir de imediato.
Há que seguir para a frente, para os lados, para cima, para o Mundo! Deixar o medo em casa e aventurar-me à Vida! Ela é tão bela e tantos a vê-la passar pela janela, alheios à fuga da felicidade. Não! Vamos. Vamos para a rua. Vamos conhecer. Que venham ruas novas e encantadoras, gente diferente, com quem possamos aprender algo. Sejamos aquele(a) que quer mais. Que faz por ter e por ser mais! Só a viver se aprende a viver. Por isso, vivamos todos para sabermos viver!
Que sejamos a pessoa que se lança no conhecimento e que chega longe por seu pé. Que sejamos o vencedor que alcança vitória depois do esforço árduo e do empenho aplicados numa batalha.
Jardins frescos para descansar, para me deitar ao lado do rio, sentir a brisa que me deseja e desejar a brisa que me sente. Entrar mais na Natureza e inserir o meu ser com a(s) existência(s) que me rodeia(m)... Estar em harmonia com o cosmos. Desfrutar do que há agora e das memórias que tecemos ao longo de jornadas impensáveis e fantásticas. Levar o melhor das pessoas connosco e deixar para trás, no esquecimento, aquilo que não é tão bom! Partilhar o que vivemos, ensinar o que aprendemos e continuar a viver neste ritmo maravilhoso e nesta experiência que é conhecermos melhor a nossa pessoa e o mundo que nos foi dado para respirar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Gostava de morrer a ouvir poesia

Numa manhã de sexta-feira
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Prefiro escrever à noite. Quando todos dormem. Quando o mundo desmaia.
De madrugada, as palavras fluem melhor. Talvez por ser quando me misturo com o sono do mundo, me aglutino com os sonhos dos sonhadores e me deixo navegar pelo rio desconhecido.
...
Amanheço extasiada com o búzio branco e puro que está na minha escrivaninha. Foi uma noite longa e infinita. Não me lembro de nada e sinto como se tivesse vivido tudo. Nevei estrelas e chovi alegrias. Sei que aconteci. Sei que fui eu. Fui eu. Nesta noite!

terça-feira, 8 de julho de 2014

Demos passos na rua

Numa rua fantástica, onde gosto de passear
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Demos passos na rua. Voltámos a repetir as sequências inconscientes de pegadas no alcatrão derretido da estrada.
Tentámos recuperar histórias enterradas pelo peso do tempo.
Descobrimos que o tempo é a ideia abstracta mais pesada que ataca a memória das pessoas, sem avisar, levando-as consigo e transportando-as para o esquecimento. Voltámos para casa.
Rasgámos o papel de parede e riscámos o chão. Encontrámos o pisa-papéis dentro do baú, castanho e velho, que descansava no terceiro canto do lar. Abrimos a janela e colocámo-lo no parapeito para apanhar ar fresco e sol.
O tempo vinha e matava. O tempo vinha e fecundava.
Demos passos na casa. Demos passeios no jardim. Da relva via-se a janela do escritório aberta. Não podíamos vender a casa! Era de família. Fazia parte da família. Estava lá a nossa história.
Fechámos a janela. Fomos embora com saudades dos tempos que não vivemos. Chorámos. Demos passos na rua.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pisei uma flor amarela


Pisei uma flor amarela. Pisei uma flor amarela igual à que um menino pediu à mãe para apanhar quando passeava com ela na rua, de manhã, a caminho da escola. O menino disse à mãe que a flor era para oferecer à Madalena. A mãe deu uma gargalhada intensa, mas amorosa. Pisei uma flor amarela, caída na calçada, murcha, com as pétalas sem força, desmanchadas na escuridão da chuva.
Olhei para o céu e vi nuvens de um branco tão branco que se assemelhavam ao Olimpo, de uma pureza tão paradisíaca, de uma perfeição tão única nas suas formas cheias de curvas, de caracóis definidos e infinitos... O sol estava escondido. Ía chover. Toda aquela água no céu não se aguentaria por muito mais tempo. O algodão, suspenso e fofo, desfazia-se em bocadinhos, dispersando-se vagarosamente no cinzento mais claro do céu.
Ao andar, com a pressa quotidiana e o cansaço permanente, sentia os meus pés a arrastarem-se morosamente. Encontrava pelo caminho folhas de Outono, no Verão. O fim do fim aproximava-se melancolicamente do mundo. Não havia nada no ar. Não havia esperança, não havia felicidade, não havia vida. Faltava aquilo que fazia falta a tudo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Precisamos...


A capacidade para ver o mundo com outros olhos está a esvaecer por entre as «brumas de uma memória» que parece apagada também. Há falta de vontade de continuar, por algum motivo. Há, em casos mais graves, falta de vontade de começar. E é isto que me assusta! 
Como pode um povo sobreviver sem cultura? 
Como pode um povo viver sem valorizar aquele que dá conteúdo, em matéria e em sonho, ao Amanhã? 

Eu acho que NÃO pode.

É verdade que é o professor que ensina o aluno a pensar e, mais importante, a valorizar o saber pensar!
Mas também é verdade que o professor, sozinho, sem auxílio da vontade do aluno e com acréscimo das desvantagens diárias desgastantes que o rodeiam atualmente não consegue fazer o seu trabalho, ou, se consegue, com menor rendimento do que o dito «normal».
Precisamos de professores que nos incentivem, mas também precisamos de alunos que deem aos professores vontade de continuar.
Sabemos nós que os professores são heróis, não deuses e, por isso, capazes de grandes feitos, não de milagres.
Pergunto então porque é que esta profissão está a ser cada vez mais desprezada, se é com ela que se fazem mundos...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ajuda


-Tens a tristeza nos olhos, querida!
-Eu sei, tia...
Abraçaram-se com a força de um trovão e a sua tempestade abrandou. Nunca tinha pensado em falar com alguém, em pedir ajuda...até que chegou o dia em que não aguentou mais... ela sabia que algo não estava bem, só não sabia o quê. Aquilo que ela questiona há meses e aquilo que sofre há anos tinha de ter um fim... mas ela não o conseguia encontrar sozinha! Sabia que estava a ir por caminhos que não devia e que, se estes fossem para ser mudados, já o deveriam ter sido. Ora, se não mudaram até ali, não seria agora nem depois que iriam mudar. O que estava a acontecer era precisamente o contrário.
- Mas o que é que tens, amor? Tu tens tudo para ser feliz!
- Pois tenho, tia! E eu sei disso... Só que eu já não estou bem há muito tempo e talvez seja esse o motivo da minha indisposição...
- Mas não estás feliz?
- Estou!
- Então, o que se passa?
- Eu estou bem, mas...
- E di-lo com os olhos em lágrimas?
- Estou bem, isto passa!
Mas não passava... e as lágrimas de dia escondiam-se atrás do seu sorriso, afogando a sua alma. As da noite salgavam os seus olhos até arderem, sem ar para respirar.
- Eu estou aqui... Posso ouvir-te!
- Deixe estar, tia. Não se preocupe.
E as lágrimas caíam-lhe pela face num desespero mudo!
- Desculpe!
- Não tens que me pedir desculpa, querida!
A tia Luísa ofereceu-lhe um sorriso e ela ficou muito triste por não ter conseguido retribuir a mais bonita forma de um rosto humano.
E era tão triste estar triste! Ter água nos olhos e no coração e não conseguir fazê-la parar de sair. Ela sabia reconhecer recaídas... quando não se aguentava na escola, um fim estava para chegar. Geralmente, conseguia guardar as lágrimas quentes para a noite. Quando isto não acontecia, um dos seus velhos novos limites estaria perto...
Mas começava a pensar que até os limites têm limite! E ela precisava de ajuda para não chegar perto deste último.

Ter que ter


Ter que ter. Ter que ter força, coragem. Principalmente uns grandes pulmões, porque se vai precisar de respirar fundo para não explodir milhares de vezes. É o ar fresco que se vai ter de conseguir engolir para desfazer aquele nó que há na garganta. É a respiração que se vai ter de controlar quando se estiver prestes a cair. São as lágrimas que se vão ter de esconder lá bem no fundo para conseguir fazer parecer tudo tão bonito com aquele sorriso perfeito. As saudações simpáticas. As vozes interiores caladas no mundo e insuportáveis na cabeça.
Temos que fazer aquele esforço de não nos queixarmos porque estamos cansados, chateados, deprimidos, tristes, sem razões para continuar... Temos de fazê-lo pelos outros.Temos de fazer de conta que tudo corre bem e agir como se tudo estivesse bem. Temos de ir à escola, às aulas, e, nesta altura do campeonato, se não ouvirmos o que se diz, pelo menos tentar fazer parecer que se ouve alguma coisa e que fica tudo muito bem estruturado nos apontamentos do caderno. Fantástico.
Os exames são aqueles papéis que todos adoramos e veneramos. Adoramos a escola, os nossos resultados e o facto de termos de decidir o nosso futuro neste mês deixa-nos super felizes. Estou a ficar sem carga irónica. Já não sei que mais sarcasmos posso tirar disto tudo... são tantos que não os consigo contar.
 Digo que sim, que é giro, que mal posso esperar para ir para a Universidade, que tenho boas expectativas do que possa acontecer, que hei-de gostar, mais tarde ou mais cedo, do curso que pretendo tirar... Também digo que não quero pensar muito antes dos exames porque nunca se sabe o que pode acontecer, que só o tempo dirá. E respondem que faço bem, que devo continuar determinada, manter a calma durante os exames, que tudo se resolverá, que hei-de obter bons resultados e que conseguirei entrar logo na primeira opção.
Se acredito no que digo? Jamais. Mas digo-lhes aquilo que querem ouvir!
Se acredito no que dizem? Não sei. Já nem consigo ouvir o que dizem, pelo menos nestes últimos dois dias. Já só vejo livros, números, letras, livros outra vez, lua, sol, chuva, nuvens, escola, livros, livros, números, papel, papel, papel. Já só cheiro café, água, água, água, café, leite, cama, banho, café, café. Já só ouço eu, a minha cabeça, o relógio, o despertador, o duche, toque para entrar, toque para sair, passe de autocarro, chave na porta de casa, quarto a encher-se de eu e de mim, teorias, teoremas, informações adicionais para os exames nacionais, vozes de fundo em salas de aula que falam de tudo e de nada, obras que me chateiam a paciência, alterações de programas pelo Ministério que não lembram ao diabo...
Já deveria saber quem sou.
Parabéns, rapariga alguém! Não consegues definir a tua pessoa. Como conseguirás definir a tua vida?

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dóis-me

Num jardim magnífico - Mafra
(Fotografia tirada pela minha mãe. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
É qualquer coisa que dói. Não sei o que é nem o porquê, mas sei que me mata todos os dias.
Ontem morri.
Hoje morri.
Amanhã hei de voltar a morrer.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Paris inventado


- Se eu fosse inventor, seria inventor de cidades! - dizia o João com grande entusiasmo - Um grande inventor de cidades. Desenharia Veneza de manhã, Paris à tarde e Londres à noite!
- E como pintarias Veneza, meu pardalucho? - perguntava a avó encantada com a determinação espantosa do seu neto.
- Com tintas, avó! E com alma, como todos os pintores famosos.
- Que artista! E Paris?
- Em Paris desenhava um «A grande» de ferro e um rio de água muito azul, com barquinhos pequeninos a nadarem à sua volta...
- Mas os barquinhos e a água muito azul são de Veneza, João!
- Oh avó, eu não te disse que ia ser inventor? Estou a inventar... Paris não se chamava Paris, mas sim Sirap, Veneza seria Azenev e Londres seria Serdnol!
- Que nomes tão estranhos, João!
- Não são nada! São os nomes das cidades ao contrário!
- Ah, estou a ver... muito original, sim senhor!
- Eu disse-te, avó, eu ía ser um grande inventor de cidades.
- Oh João... e países? Não queres inventar países também?
- Não, avó. Os países são muito difíceis. Têm  muitas cidades e depois eu ficava muito cansado.
A avó, deliciada com a autonomia do seu João, deixava-se levar pelas histórias que nasciam naqueles diálogos extraordinários.
- Tens razão, João! É muito importante descansar e ter tempo para dedicar à família e aos amigos!
- Não te preocupes, avó! Eu não vou fazer mais do que uma cidade por semana... e à tarde, quando sair do meu trabalho, venho visitar-te e contar-te que cidade é que estarei a inventar.
A avó deixou-se em silêncio, a sorrir e a sentir o seu João a crescer, a crescer até ser mais alto do que ela. O pequeno agarra numa folha branca, num pincel, nas aguarelas e no copinho com água e afirma com uma espontaneidade maravilhosa:
- Avó, avó, já sei! Hoje, vou inventar uma cidade inteira e vai ser a mais bonita do mundo. Vou chamar-lhe «A Cidade das Avós»!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Há, de Haver


Há pessoas que nos despem a alma, que conseguem perceber quem somos e o porquê de o sermos! Há pessoas que, quando nos agarram as mãos com a sua vida e o seu sorriso, nos fazem sentir amados, únicos e úteis neste mundo. A sensação de pertencer a algum lado. Há olhares que nos ficam gravados em pedaços de memória e que nos chegam ao mais profundo do nosso interior. Há sorrisos que nos fazem sorrir! E esses, querida amiga, são aqueles que nos fazem voar nas asas de um sonho, são de quem não conseguimos viver com a sua ausência, são os sorrisos delas e são também a nossa vida!
Há amor que não se confunde e há pessoas que amamos verdadeiramente, não havendo qualquer dúvida disso. Há actos que não se explicam, e outros que simplesmente completam o sentido das palavras únicas do mundo que são cuidadosamente escolhidas por quem as declama, como num poema de amor cantado nos crepúsculos e nas auroras frescas em cima de um terraço. Há alegria que é causada pelos momentos e há felicidade que é criada pelas pessoas inesquecíveis.
Daria, sem margem de dúvida, a minha vida por pessoas assim, pelas pessoas que me fazem sentir amada, mas mais importante, pelas que amo!

Matemática vs Poesia

Um dos meus blocos de notas
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
A beleza da Matemática é igual à da Poesia - só a vê quem a sente!



Máquina de escrever improvisada

Máquina de escrever do meu avô - Olivetti STUDIO 45
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Ando há já algum tempo à espera da máquina de escrever do meu avô que está na cave, mas o meu pai nunca mais se lembrou. Eu também não quero estar a chateá-lo… de trabalho está ele cheio.
Decidi começar (se tiver oportunidade) a escrever numa máquina daquelas para organizar os meus textos. Tenho um enorme fascínio por aqueles instrumentos e quando vejo um, lembro-me das vidas que não vivi, das páginas que hei- de escrever e das histórias que nascerão naquele berço. Gosto de escrever à mão. É uma mania! Gosto do cheiro do carvão e da tinta. Do papel. E começar a escrever numa máquina daquelas seria um privilégio, já que escritores e poetisas que tanto admiro escreveram em maravilhas como aquela.
Ora, a vontade de escrever bateu-me nos dedos e lembrei-me da relíquia que me espera. Ou que a espero eu! Foi então que comecei a escrever no computador, enquanto a preciosidade não chegava. Não é que já tenha escrito em máquinas de escrever… não é esse o ponto. Onde quero chegar é que a emoção de ouvir o tilintar das teclas e o raspar da folha de papel deve ser totalmente distinta daquela de quando ouvimos as teclas do computador - barulho muito seco, muito áspero, muito distante.
Parece-me a mim que o som das teclas da máquina de escrever é mais vivo. Mais real. Contudo, não significa que tenha razão!
Chamem-me doida, lunática, antiquada, fora de estilo… enfim, o que quiserem e o que conseguirem para definir a pessoa que acham que conhecem de mim. Mas eu não me importo. Sou assim. Há quem goste e quem não goste. Tenho o infinito prazer de conhecer quem gosta. Façam favor de se apresentar os que não gostam – o prazer é todo vosso!

Hoje


Hoje foi como se estivesse estado dentro de uma bolha. Estava completamente desligada do mundo. Quando dava por mim estava surda para o exterior. Só ouvia o silêncio que não havia.  Olhava para o nada e pensava em algo. Algo suficientemente potente para me arrastar para o estado em que estava. Depois do tanto que reflecti, senti uma espécie de paz que me rodeava, como uma bolha... só havia eu. Só havia a minha caneta. Só havia a minha borracha e o meu lápis. Só havia o meu estojo. Só havia os meus livros, os meus cadernos. Só havia a minha mesa. A turma estava lá. Mas não estava. A professora falava, dava matéria. Mas não falava, não dava matéria.
Era como se vivesse sem viver.
Observava tudo detalhadamente sem prestar a mínima atenção à audição. Depois, a certa altura, a visão começou a falhar-me. Via tudo a esvaecer-se, como se tudo se quisesse despedir de mim ou como se o mundo me estivesse a dizer adeus. Não sabia o que se passava. Era tudo tão estranho, tão sem sentido. Mas nem isso me preocupava. Pensei que estava a deixar de viver. Pensei que estava a morrer. Nem isso me preocupava. Deixei de pensar e fiquei apenas ali, a estar com o corpo, a fingir que o corpo é que vive. Não me preocupava.
Há dias em que apetece desaparecer, fugir de tudo e acabar com o que há para acabar.
Há dias em que simplesmente se deixa tudo ser como é, alheios ao que existe e ao que não existe, sem querer saber.
Há dias em que se gasta o tempo como se gasta aquilo que a gente não precisa na vida.
E há dias...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Rotina


Já não tenho chuva dentro de mim, nem nuvens no meu céu...
Já não existe vento nas gaiolas do meu peito, nem brisa no silêncio dos meus olhos.
Entre a noite que é cega e a madrugada que é surda, tento agarrar palavras para o dia.
Entre a lua pálida e morta e as estrelas esmorecidas no céu, tento guardar alguma poeira galáctica que me ajude a voar durante a escuridão do sono.
Já não há vida para além da temporalidade do papel. Mas eu continuo aqui. A existir.
Faltam-me as pérolas do mar para poder pensar; faltam-me as borboletas de aguarela para conseguir respirar. Falta-me o tempo... falta-me a vida!
E lá fora, o senhor do café continua igual, a senhora da papelaria também, o chão da calçada mais gasto por passos impensáveis, as árvores das ruas mais sábias e as coisas esquecidas ainda mais esquecidas. As rosas dos jardins vivos da vila choram ao sol e imploram por sangue de vida, seiva vermelha que lhes corre nas pétalas escarlate que se desenrolam do botão cheio de pó do paraíso.
O jornal diário continua a ser renovado nas mesas do café do senhor Zé; as revistas do quiosque da dona Madalena seguem o mesmo caminho; as violetas do canteiro da tia Ana fazem-na olhar para trás, para o que passou e que já não volta e impedem-na de olhar para o futuro, para o que lá vem ou há de vir.

domingo, 27 de abril de 2014

Morri


Os meus sonhos eram tudo o que tinha.
Mas esvaeceram-se.
Com eles, a minha alma também.
Com eles, morri!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

De onde vieste?

Verão de 2013, numa praia algures
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Querida, a minha alma imortal morreu na noite passada. Hoje, de madrugada, enterrei-a!
Em tempos muito antigos, dos quais não tens memória porque ainda não existias, eu era como tu - tinha fome do passado e sede do futuro; era mãe dos meus medos e filha dos meus sonhos. Nasci naquela aldeia de pedra e cresci com as palavras, a poesia...
Tu gostavas das minhas histórias e pedias sempre mais. Ah! Como é bom ser avó!
Hoje, os sinos da igreja estalam por minha causa.
Voei por entre as lusas brumas de um sonho transmontano para te ver. Estás a chorar!
De onde vieste, tristeza, que vejo nos olhos da minha neta?
Sinto os teus pensamentos tão pesados! As lágrimas de hoje são por mim derramadas? Lembra-te que pior do que morrer alguém, é morrer o amor por alguém!
Sei que, depois destas negras nuvens chorarem, a tua eterna e verdadeira felicidade encontrar-te-á. Consigo ver a família que criarás e o sorriso que nascerá em ti sem te aperceberes.
E eu, de te ver feliz, sorri!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Coração Português, Alma Grega


Heroína com poderes mágicos... O poder do fogo, da água, da terra e do mar. Vinda de poemas sonhados no Coração da Grécia Antiga, é hoje livre no vento e na brisa do cosmos que nos beijam e nos abraçam à luz de ocaso indefinido.
A Costureira de Palavras, que as ia cosendo umas às outras com agulhas de poetisa sonhadora, continua entre nós, na essência da maresia, no azul resplandecente cobiçado pelo  céu e pelo mar e no mistério da mitologia.
Imagino que até o seu último suspiro tenha sido perfeito e tenha libertado consigo uma sinfonia unicamente arrebatadora que o imortalizasse ou o tornasse eterno. Pergunto-me se as suas últimas palavras foram ouvidas pelas estrelas fúlgidas e longínquas que iluminam a abóbada celeste quando o sol descansa.
Com a sua sabedoria, Sophia fechou os olhos, deixando que a sua alma voasse no mundo dos não vivos, para que no nosso, o seu corpo descansasse em paz!

domingo, 23 de março de 2014

Abismo


Perdi-te. Tiraram-te de mim. Depois morri.
Quis ser sol nos teus dias cinzentos, ser água nos secos. Quis beijar as nuvens de teu semblante infinito e abraçar o teu coração.
E fui sol nos teus dias cinzentos, água nos secos. E beijei as nuvens de teu semblante infinito e abracei o teu coração.
Não foi suficiente. Porque te perdi demasiado cedo! Deveria fazer-te tudo aquilo e muito mais, pelas estações vindouras, pelos tempos que passaríamos juntos... Tudo o que te quis dar, tudo o que te quis ser. Tudo ficou incompleto como uma obra inacabada. As mãos do Universo não foram cuidadosas contigo. Os seus dedos não pintaram a nossa vida devidamente. E revendo a tua história, pergunto porquê! Porquê alguém que faz tão bem ao mundo?
E zanguei-me. Zanguei-me com os pincéis do cosmos, por não terem retirado tinta suficiente para a tua tela! Nada tenho contra a variedade de cores. O que fez de facto falta foi mais tinta.
A felicidade que me proporcionas é indescritível. As memórias que de ti ficaram guardo com o meu coração e quando as recordo é como se voltasses para mim. Depois, quando caio na realidade, uma melancolia, uma angústia, uma nostalgia intensa como o negro e o vermelho do Inferno invadem-me o coração.E é uma dor tão grande, tão grande!
Gritei, blasfemei, esperneei, chorei, acabei com o mundo à minha volta quando te vi fechar os olhos, amor! Os olhos que não voltaria a ver, o rosto alegre e corado que naquele momento perdeu a cor e a garra pela vida, meu filho! Os lábios encarnados que beijavam as bochechas da tua mãe, querido! Perderam a cor. Perderam a vida. Os teus cabelos castanhos como os do teu pai e encaracolados como os meus, tua mãe, que costumavam esvoaçar ao vento cheios de força, caíam agora pela tua face, fracos e mais escuros. O teu sorriso inocente e puro, a tua bondade de coração igual à do teu pai eram o meu orgulho. Os meus dois homens. Os da minha vida. E perdi-te.
A revolta instalou-se. O pânico ajudou ao meu estado completo de desespero. Ter-te nos meus braços, sem poder ordenar ao tempo que voltasse atrás. Tiraram-te de mim. Roubaram-te a vida, filho! E eu não pude fazer nada. Prenderam-me e deixaram-me ver-te ali, no chão duro e gélido, sem amparo, só!
Como descrever a tua morte? Quando ouvi o seu som fiquei imediatamente surda. Não ouvi mais nada, nem os gritos horrorizados que dei. Só consegui sentir o teu corpo cair morto, sem cor, sem ti. Revejo-o vezes sem conta e agarro-me ao teu pai, a chorar, quase morta também. Ele abraça-me com a sua força e bondade e chora comigo. Ainda estás connosco, filho. Nunca desaparecerás. Afinal, foste o fruto do nosso amor. E este, é imortal!

Feito com Amor


Dar Vida. Em conjunto, a dois. Antes de mais nada, ser Vida. Ser verdadeiramente feliz. Depois, alimentar esse amor diariamente com a palavra, a atitude, o respeito, a confiança. Construir um lar, a partir dos alicerces essenciais, ao longo de uma vida fiel. Mais tarde, surgirá a necessidade de não sermos apenas dois, mas três, ou quatro, ou até mesmo cinco. Então, o milagre da vida acontecerá em mim, em ti, em nós. Do nosso ser, surgirá o fruto que, após rebentar o botão, dará origem a uma flor - alguém. Esse alguém será o nosso tudo, o nosso próximo propósito de vida. Trazer ao mundo um nome. Uma história.
Educá-lo e ensiná-lo com amor e toda a disponibilidade materna e paterna. O primeiro sorriso, a primeira palavra! Que alegria única! Depois, o primeiro passo... e a partir daí o tempo voa  como uma gaivota no seu manto azul celeste, sem fim e sem destino. O primeiro dezanove de Março e o primeiro Domingo de Maio no primeiro ano de escola deverão ser inesquecíveis. É a partir daí que, anualmente, os frutos se lembrarão das sementes de uma forma tão genuína, tão deles. Receber um enorme beijo e abraço quando os vamos buscar à escola. O prazer eterno de ouvir aquelas vozes doces e apetecíveis, uns enormes e sentidos «Mãe» e «Pai». Vale a pena viver, se assim amar.
Se assim for, estou tranquila se a existência não passar da existência!
O primeiro dente  a baloiçar. O primeiro caracol de cabelo cortado. O orgulho de conseguir arrancar o dente sem doer «quase nada». O primeiro brinquedo, aquele que não largará nem no banho, aquele que vamos insistir para ele largar mas que será a mesma coisa que falar para um boneco. As imensas fotografias que imortalizarão estes tempos de ouro. O primeiro trambolhão de bicicleta, de patins e de skate. O desenho animado favorito, aquele que lhe servirá de inspiração durante alguns meses. A primeira birra. E a segunda. E a terceira...
O primeiro dia de escolinha. A primeira amizade colorida. A descoberta de que os meninos são diferentes das meninas. As perguntas do porquê de assim ser. As perguntas do porquê de não ser de outra maneira. Os porquês disto e os porquês daquilo... Os porquês que pensaremos não terem fim! O nosso espanto com a inteligência de um pequenote que formula pensamentos tão grandes e questões  tão complicadas de responder.
A seguir, o aparecimento de mais um irmão, mais um fruto do nosso amor. Recebê-lo-emos de coração puro e aberto (mas desta vez, com mais experiência). Será o nosso presente para o primeiro fruto e ele tratá-lo-á como tal. Um sonho realizado, uma vida feliz. Duas existências que não foram em vão. Porque houve um propósito. Porque houve amor. Porque houve frutos.
Os primeiros melhores amigos. As primeiras zangas. As primeiras desilusões. O primeiro desgosto amoroso. As primeiras lágrimas derramadas por um pedacito do coração ter ficado «engripado». Os nossos abraços e outras ternuras inesquecíveis que eles vão precisar nessas alturas. Os nossos sorrisos que pedirão sem falar e que entenderemos pelo olhar. O nosso apoio. O nosso «Vai correr tudo bem!», mesmo que a gente suspeite que não será assim. É preciso acreditar neles e fazê-los perceber que acreditamos mesmo. A nossa esperança de que tudo lhes será possível. A nossa previsão de que serão os nossos heróis, como aqueles da B.D. que lhes dávamos a conhecer quando íam para a cama.
Os primeiros erros. As primeiras indecisões. O verdadeiro stress na escola. A preocupação de subir a média. A profissão por escolher. As dúvidas existenciais. As épocas propícias a pancadas desnecessárias causadas pela entrada em «piloto automático»... enfim, tudo aquilo por que passamos todos, mais ou menos intensamente. As noites em branco, a estudar. As insónias, aquele mau pressentimento que não nos deixa descansar. As figuras de zombie que se fazem depois disto... As nossas reprimendas do costume (que sabemos não terem efeito nenhum... já tivemos a idade deles, de que servem os paninhos quentes?). A universidade por escolher. A vida por planear!
Após inúmeras experiências e memórias incontáveis, chegará o momento de voarem. É a lei da Vida... também já nós voámos! Teremos a sensação horrível de algo tão nosso nos estar a escapar por entre os dedos e não podermos fazer nada! Agora, é a vez deles serem felizes, acompanhados, unindo-se num só, com alguém. Tal como nós, em tempos.
Restamos nós, dois corpos e duas almas. Esperamos os dois pelo último suspiro! Peço que o meu surja primeiro, ou que surjam simultaneamente para não vivermos sós, seja onde for.

terça-feira, 11 de março de 2014

Clandestino


Noite escura. Sem luz. Estava frio seco e vento cortante e o pobre homem vagueava, claudicando como um moribundo no fim do tempo de vida. Agasalhado com roupas que não eram suas, tremia os dentes fracos e esfregava ambas as mãos nos braços (como se se abraçasse a si mesmo) com uma velocidade estonteante. A sua respiração era inconstante e acompanhada de um ruído desagradável da tosse causada pelo gelo que inspirava. Os seus cabelos, secos e maltratados, lutavam entre si. Os seus olhos mendigos, perdidos, já sem brilho e sem cor, procuravam na escuridão um fio de luz transparente. Os lábios gretados daquela boca, quase em sangue, tinham uma história de quase meio século para contar. Mas ninguém o ouvia. Ninguém excepto ele e as estrelas mais próximas. A Lua, essa, tinha virado as costas à Terra.
Deitou-se em cima de qualquer coisa imperceptível e desejou morrer. Mas nem todos os desejos se realizam...
Aguentou um pouco mais e adormeceu.
Manhã incandescente, cheia de luz branca e clara que magoa os olhos desprevenidos que acordam serenamente. A escuridão abandonou-o por fim. No entanto, o frio veio para ficar. Para ele, não havia nada mais desagradável do que sentir a sensibilidade a desaparecer. Até a fome se aguentava melhor - aquelas dores de estômago insuportáveis que, mesmo depois de comer, continuam a torturar o ser enfermo, parecendo não haver fim.
Poisou as mão sujas no chão duro e real para se apoiar e empurrou o solo, na tentativa de que algo inesperado acontecesse. «O quê?» perguntava ele, sem nada e com tudo no pensamento, vezes sem conta, com fé de que alguma resposta pudesse surgir, por obra divina do Espírito Santo ou não, por magia inexistente e imaginária dos astros ou ainda pela sua própria força, já fraca de tanto esforço!
Levantou-se e esperou pelo que esperava nos últimos dias... alguma coisa que não fosse nada e que fosse coisa suficiente e não em demasia. Vá-se lá perceber!

Lágrimas de sangue


Há vários tipos de pessoas - aquelas que não merecem as lágrimas que derramo e aquelas a quem devo a minha felicidade, a minha vida.
Sentei-me numas escadas de jardim, ouvi e senti as gotas grossa e pesadas da chuva no meu rosto. Era Inverno! Chovia. E eu estava sentada a fazer nada. Sozinha. A fazer nada. Admirava os pingos da chuva como uma criança admira as mil luzinhas da árvore de Natal - radiante com a sua beleza, com a autenticidade desses pontinhos que caíam sobre a minha cabeça pesada, sobre o meu cabelo castanho, encaracolado e progressivamente mais molhado, sem me questionar onde nascera tal fonte que, suspensa por cima do meu corpo, se matava aos poucos, sem fim, sem tempo.
Os meus olhos choviam também. Pérolas gastas pelo tempo, tornavam-se cinzentas de monotonia. A luz efémera da minha alma consumia-se a um passo superior à velocidade que eu outrora lhe permitira.
A minha força de vontade, o meu alento, que haviam estado em baixo, foram levantados por um dos mais preciosos anjinhos da guarda. (Infelizmente) Voltaram a cair, mas desta vez, desta derradeira vez, bateu mesmo no fundo e já não há nada que alguém possa fazer. Chovia.
Fiz coisas que não se devem fazer. Tentei acabar com tudo. Tentei que tudo acabasse ali, naquele momento em que se decide o que fazer com a vida/morte.
E as lágrimas que não consegui derramar afogaram-me em mágoas desconhecidas.
As lágrimas que não consegui derramar, mataram aqueles que não as mereciam.

A senhora do chapéu de chuva


Chove torrencialmente e é Inverno. Os trovões estridentes rebentam na escuridão, largando luzes, fortes clarões que iluminam a noite por momentos. Ouve-se o cair das gotas grossas, potentes e unicamente brilhantes na estrada, com força, cheias de força, que parecem arrancar pedaços do chão. Chove torrencialmente e é Inverno.
Tenho de ir para a estação. Mas está a chover intensamente... Uma senhora chegou. Disse-me «Boa noite!» e também que me levava à estação. Aceitei. Não abri a boca durante a pequena viagem e a palavra que me ocorreu instantaneamente foi o comum «Obrigado!». Olhou-me nos olhos e reconheci-lhe o brilho do olhar, a voz ternurenta que se deixava sair entrava-me no coração como a essência única e indescritível de recordações da infância. Aquela bondade inconfundível...
Como pude quase esquecer-me de como era?
Como?
Chove torrencialmente e é Inverno.
A ausência das pessoas durante um determinado tempo faz-nos ver as coisas menos nítidas; é como se o tempo fosse nevoeiro... Temos tanta saudade, tanta vontade de sorrir, de ser feliz! Tanta ânsia de viver que acabamos por distorcer as verdadeiras imagens.
Entro agora no autocarro totalmente impressionada...
Chove torrencialmente e é Inverno.