sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dóis-me

Num jardim magnífico - Mafra
(Fotografia tirada pela minha mãe. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
É qualquer coisa que dói. Não sei o que é nem o porquê, mas sei que me mata todos os dias.
Ontem morri.
Hoje morri.
Amanhã hei de voltar a morrer.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Paris inventado


- Se eu fosse inventor, seria inventor de cidades! - dizia o João com grande entusiasmo - Um grande inventor de cidades. Desenharia Veneza de manhã, Paris à tarde e Londres à noite!
- E como pintarias Veneza, meu pardalucho? - perguntava a avó encantada com a determinação espantosa do seu neto.
- Com tintas, avó! E com alma, como todos os pintores famosos.
- Que artista! E Paris?
- Em Paris desenhava um «A grande» de ferro e um rio de água muito azul, com barquinhos pequeninos a nadarem à sua volta...
- Mas os barquinhos e a água muito azul são de Veneza, João!
- Oh avó, eu não te disse que ia ser inventor? Estou a inventar... Paris não se chamava Paris, mas sim Sirap, Veneza seria Azenev e Londres seria Serdnol!
- Que nomes tão estranhos, João!
- Não são nada! São os nomes das cidades ao contrário!
- Ah, estou a ver... muito original, sim senhor!
- Eu disse-te, avó, eu ía ser um grande inventor de cidades.
- Oh João... e países? Não queres inventar países também?
- Não, avó. Os países são muito difíceis. Têm  muitas cidades e depois eu ficava muito cansado.
A avó, deliciada com a autonomia do seu João, deixava-se levar pelas histórias que nasciam naqueles diálogos extraordinários.
- Tens razão, João! É muito importante descansar e ter tempo para dedicar à família e aos amigos!
- Não te preocupes, avó! Eu não vou fazer mais do que uma cidade por semana... e à tarde, quando sair do meu trabalho, venho visitar-te e contar-te que cidade é que estarei a inventar.
A avó deixou-se em silêncio, a sorrir e a sentir o seu João a crescer, a crescer até ser mais alto do que ela. O pequeno agarra numa folha branca, num pincel, nas aguarelas e no copinho com água e afirma com uma espontaneidade maravilhosa:
- Avó, avó, já sei! Hoje, vou inventar uma cidade inteira e vai ser a mais bonita do mundo. Vou chamar-lhe «A Cidade das Avós»!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Há, de Haver


Há pessoas que nos despem a alma, que conseguem perceber quem somos e o porquê de o sermos! Há pessoas que, quando nos agarram as mãos com a sua vida e o seu sorriso, nos fazem sentir amados, únicos e úteis neste mundo. A sensação de pertencer a algum lado. Há olhares que nos ficam gravados em pedaços de memória e que nos chegam ao mais profundo do nosso interior. Há sorrisos que nos fazem sorrir! E esses, querida amiga, são aqueles que nos fazem voar nas asas de um sonho, são de quem não conseguimos viver com a sua ausência, são os sorrisos delas e são também a nossa vida!
Há amor que não se confunde e há pessoas que amamos verdadeiramente, não havendo qualquer dúvida disso. Há actos que não se explicam, e outros que simplesmente completam o sentido das palavras únicas do mundo que são cuidadosamente escolhidas por quem as declama, como num poema de amor cantado nos crepúsculos e nas auroras frescas em cima de um terraço. Há alegria que é causada pelos momentos e há felicidade que é criada pelas pessoas inesquecíveis.
Daria, sem margem de dúvida, a minha vida por pessoas assim, pelas pessoas que me fazem sentir amada, mas mais importante, pelas que amo!

Matemática vs Poesia

Um dos meus blocos de notas
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
A beleza da Matemática é igual à da Poesia - só a vê quem a sente!



Máquina de escrever improvisada

Máquina de escrever do meu avô - Olivetti STUDIO 45
(Fotografia da minha autoria. Por favor, não a utilizar sem autorização prévia.)
Ando há já algum tempo à espera da máquina de escrever do meu avô que está na cave, mas o meu pai nunca mais se lembrou. Eu também não quero estar a chateá-lo… de trabalho está ele cheio.
Decidi começar (se tiver oportunidade) a escrever numa máquina daquelas para organizar os meus textos. Tenho um enorme fascínio por aqueles instrumentos e quando vejo um, lembro-me das vidas que não vivi, das páginas que hei- de escrever e das histórias que nascerão naquele berço. Gosto de escrever à mão. É uma mania! Gosto do cheiro do carvão e da tinta. Do papel. E começar a escrever numa máquina daquelas seria um privilégio, já que escritores e poetisas que tanto admiro escreveram em maravilhas como aquela.
Ora, a vontade de escrever bateu-me nos dedos e lembrei-me da relíquia que me espera. Ou que a espero eu! Foi então que comecei a escrever no computador, enquanto a preciosidade não chegava. Não é que já tenha escrito em máquinas de escrever… não é esse o ponto. Onde quero chegar é que a emoção de ouvir o tilintar das teclas e o raspar da folha de papel deve ser totalmente distinta daquela de quando ouvimos as teclas do computador - barulho muito seco, muito áspero, muito distante.
Parece-me a mim que o som das teclas da máquina de escrever é mais vivo. Mais real. Contudo, não significa que tenha razão!
Chamem-me doida, lunática, antiquada, fora de estilo… enfim, o que quiserem e o que conseguirem para definir a pessoa que acham que conhecem de mim. Mas eu não me importo. Sou assim. Há quem goste e quem não goste. Tenho o infinito prazer de conhecer quem gosta. Façam favor de se apresentar os que não gostam – o prazer é todo vosso!

Hoje


Hoje foi como se estivesse estado dentro de uma bolha. Estava completamente desligada do mundo. Quando dava por mim estava surda para o exterior. Só ouvia o silêncio que não havia.  Olhava para o nada e pensava em algo. Algo suficientemente potente para me arrastar para o estado em que estava. Depois do tanto que reflecti, senti uma espécie de paz que me rodeava, como uma bolha... só havia eu. Só havia a minha caneta. Só havia a minha borracha e o meu lápis. Só havia o meu estojo. Só havia os meus livros, os meus cadernos. Só havia a minha mesa. A turma estava lá. Mas não estava. A professora falava, dava matéria. Mas não falava, não dava matéria.
Era como se vivesse sem viver.
Observava tudo detalhadamente sem prestar a mínima atenção à audição. Depois, a certa altura, a visão começou a falhar-me. Via tudo a esvaecer-se, como se tudo se quisesse despedir de mim ou como se o mundo me estivesse a dizer adeus. Não sabia o que se passava. Era tudo tão estranho, tão sem sentido. Mas nem isso me preocupava. Pensei que estava a deixar de viver. Pensei que estava a morrer. Nem isso me preocupava. Deixei de pensar e fiquei apenas ali, a estar com o corpo, a fingir que o corpo é que vive. Não me preocupava.
Há dias em que apetece desaparecer, fugir de tudo e acabar com o que há para acabar.
Há dias em que simplesmente se deixa tudo ser como é, alheios ao que existe e ao que não existe, sem querer saber.
Há dias em que se gasta o tempo como se gasta aquilo que a gente não precisa na vida.
E há dias...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Rotina


Já não tenho chuva dentro de mim, nem nuvens no meu céu...
Já não existe vento nas gaiolas do meu peito, nem brisa no silêncio dos meus olhos.
Entre a noite que é cega e a madrugada que é surda, tento agarrar palavras para o dia.
Entre a lua pálida e morta e as estrelas esmorecidas no céu, tento guardar alguma poeira galáctica que me ajude a voar durante a escuridão do sono.
Já não há vida para além da temporalidade do papel. Mas eu continuo aqui. A existir.
Faltam-me as pérolas do mar para poder pensar; faltam-me as borboletas de aguarela para conseguir respirar. Falta-me o tempo... falta-me a vida!
E lá fora, o senhor do café continua igual, a senhora da papelaria também, o chão da calçada mais gasto por passos impensáveis, as árvores das ruas mais sábias e as coisas esquecidas ainda mais esquecidas. As rosas dos jardins vivos da vila choram ao sol e imploram por sangue de vida, seiva vermelha que lhes corre nas pétalas escarlate que se desenrolam do botão cheio de pó do paraíso.
O jornal diário continua a ser renovado nas mesas do café do senhor Zé; as revistas do quiosque da dona Madalena seguem o mesmo caminho; as violetas do canteiro da tia Ana fazem-na olhar para trás, para o que passou e que já não volta e impedem-na de olhar para o futuro, para o que lá vem ou há de vir.