segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pisei uma flor amarela


Pisei uma flor amarela. Pisei uma flor amarela igual à que um menino pediu à mãe para apanhar quando passeava com ela na rua, de manhã, a caminho da escola. O menino disse à mãe que a flor era para oferecer à Madalena. A mãe deu uma gargalhada intensa, mas amorosa. Pisei uma flor amarela, caída na calçada, murcha, com as pétalas sem força, desmanchadas na escuridão da chuva.
Olhei para o céu e vi nuvens de um branco tão branco que se assemelhavam ao Olimpo, de uma pureza tão paradisíaca, de uma perfeição tão única nas suas formas cheias de curvas, de caracóis definidos e infinitos... O sol estava escondido. Ía chover. Toda aquela água no céu não se aguentaria por muito mais tempo. O algodão, suspenso e fofo, desfazia-se em bocadinhos, dispersando-se vagarosamente no cinzento mais claro do céu.
Ao andar, com a pressa quotidiana e o cansaço permanente, sentia os meus pés a arrastarem-se morosamente. Encontrava pelo caminho folhas de Outono, no Verão. O fim do fim aproximava-se melancolicamente do mundo. Não havia nada no ar. Não havia esperança, não havia felicidade, não havia vida. Faltava aquilo que fazia falta a tudo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Precisamos...


A capacidade para ver o mundo com outros olhos está a esvaecer por entre as «brumas de uma memória» que parece apagada também. Há falta de vontade de continuar, por algum motivo. Há, em casos mais graves, falta de vontade de começar. E é isto que me assusta! 
Como pode um povo sobreviver sem cultura? 
Como pode um povo viver sem valorizar aquele que dá conteúdo, em matéria e em sonho, ao Amanhã? 

Eu acho que NÃO pode.

É verdade que é o professor que ensina o aluno a pensar e, mais importante, a valorizar o saber pensar!
Mas também é verdade que o professor, sozinho, sem auxílio da vontade do aluno e com acréscimo das desvantagens diárias desgastantes que o rodeiam atualmente não consegue fazer o seu trabalho, ou, se consegue, com menor rendimento do que o dito «normal».
Precisamos de professores que nos incentivem, mas também precisamos de alunos que deem aos professores vontade de continuar.
Sabemos nós que os professores são heróis, não deuses e, por isso, capazes de grandes feitos, não de milagres.
Pergunto então porque é que esta profissão está a ser cada vez mais desprezada, se é com ela que se fazem mundos...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ajuda


-Tens a tristeza nos olhos, querida!
-Eu sei, tia...
Abraçaram-se com a força de um trovão e a sua tempestade abrandou. Nunca tinha pensado em falar com alguém, em pedir ajuda...até que chegou o dia em que não aguentou mais... ela sabia que algo não estava bem, só não sabia o quê. Aquilo que ela questiona há meses e aquilo que sofre há anos tinha de ter um fim... mas ela não o conseguia encontrar sozinha! Sabia que estava a ir por caminhos que não devia e que, se estes fossem para ser mudados, já o deveriam ter sido. Ora, se não mudaram até ali, não seria agora nem depois que iriam mudar. O que estava a acontecer era precisamente o contrário.
- Mas o que é que tens, amor? Tu tens tudo para ser feliz!
- Pois tenho, tia! E eu sei disso... Só que eu já não estou bem há muito tempo e talvez seja esse o motivo da minha indisposição...
- Mas não estás feliz?
- Estou!
- Então, o que se passa?
- Eu estou bem, mas...
- E di-lo com os olhos em lágrimas?
- Estou bem, isto passa!
Mas não passava... e as lágrimas de dia escondiam-se atrás do seu sorriso, afogando a sua alma. As da noite salgavam os seus olhos até arderem, sem ar para respirar.
- Eu estou aqui... Posso ouvir-te!
- Deixe estar, tia. Não se preocupe.
E as lágrimas caíam-lhe pela face num desespero mudo!
- Desculpe!
- Não tens que me pedir desculpa, querida!
A tia Luísa ofereceu-lhe um sorriso e ela ficou muito triste por não ter conseguido retribuir a mais bonita forma de um rosto humano.
E era tão triste estar triste! Ter água nos olhos e no coração e não conseguir fazê-la parar de sair. Ela sabia reconhecer recaídas... quando não se aguentava na escola, um fim estava para chegar. Geralmente, conseguia guardar as lágrimas quentes para a noite. Quando isto não acontecia, um dos seus velhos novos limites estaria perto...
Mas começava a pensar que até os limites têm limite! E ela precisava de ajuda para não chegar perto deste último.

Ter que ter


Ter que ter. Ter que ter força, coragem. Principalmente uns grandes pulmões, porque se vai precisar de respirar fundo para não explodir milhares de vezes. É o ar fresco que se vai ter de conseguir engolir para desfazer aquele nó que há na garganta. É a respiração que se vai ter de controlar quando se estiver prestes a cair. São as lágrimas que se vão ter de esconder lá bem no fundo para conseguir fazer parecer tudo tão bonito com aquele sorriso perfeito. As saudações simpáticas. As vozes interiores caladas no mundo e insuportáveis na cabeça.
Temos que fazer aquele esforço de não nos queixarmos porque estamos cansados, chateados, deprimidos, tristes, sem razões para continuar... Temos de fazê-lo pelos outros.Temos de fazer de conta que tudo corre bem e agir como se tudo estivesse bem. Temos de ir à escola, às aulas, e, nesta altura do campeonato, se não ouvirmos o que se diz, pelo menos tentar fazer parecer que se ouve alguma coisa e que fica tudo muito bem estruturado nos apontamentos do caderno. Fantástico.
Os exames são aqueles papéis que todos adoramos e veneramos. Adoramos a escola, os nossos resultados e o facto de termos de decidir o nosso futuro neste mês deixa-nos super felizes. Estou a ficar sem carga irónica. Já não sei que mais sarcasmos posso tirar disto tudo... são tantos que não os consigo contar.
 Digo que sim, que é giro, que mal posso esperar para ir para a Universidade, que tenho boas expectativas do que possa acontecer, que hei-de gostar, mais tarde ou mais cedo, do curso que pretendo tirar... Também digo que não quero pensar muito antes dos exames porque nunca se sabe o que pode acontecer, que só o tempo dirá. E respondem que faço bem, que devo continuar determinada, manter a calma durante os exames, que tudo se resolverá, que hei-de obter bons resultados e que conseguirei entrar logo na primeira opção.
Se acredito no que digo? Jamais. Mas digo-lhes aquilo que querem ouvir!
Se acredito no que dizem? Não sei. Já nem consigo ouvir o que dizem, pelo menos nestes últimos dois dias. Já só vejo livros, números, letras, livros outra vez, lua, sol, chuva, nuvens, escola, livros, livros, números, papel, papel, papel. Já só cheiro café, água, água, água, café, leite, cama, banho, café, café. Já só ouço eu, a minha cabeça, o relógio, o despertador, o duche, toque para entrar, toque para sair, passe de autocarro, chave na porta de casa, quarto a encher-se de eu e de mim, teorias, teoremas, informações adicionais para os exames nacionais, vozes de fundo em salas de aula que falam de tudo e de nada, obras que me chateiam a paciência, alterações de programas pelo Ministério que não lembram ao diabo...
Já deveria saber quem sou.
Parabéns, rapariga alguém! Não consegues definir a tua pessoa. Como conseguirás definir a tua vida?