domingo, 28 de fevereiro de 2016

Campo de Batalha


Angústia. Nostalgia.
Um peso enorme no peito. E vontade de deixar a vida.
Ela sentia-se cheia de tudo! E tinha o coração tão vazio!
Pensou como seria o mundo sem ela: não muito diferente. Achou que a sua presença no cosmos era algo superficial, sem valor! E imaginou como seria se se deixasse cair pelo vento: queria que fosse rápido e indolor – algo que lhe roubasse os problemas e lhe oferecesse motivos para sorrir – pois mais dor ela não conseguiria suportar. O seu coração já tinha sido espezinhado com a força suficiente, vezes suficientes. Já não suportava mais lágrimas a afogá-la diariamente.
Regrediu. E se alguém a empurrasse? Não seria injusto? Talvez. Mas ela queria fazê-lo e não que alguém o fizesse por ela. Sentiu o desejo da vingança se o fizessem, contudo sem saber o porquê de tal fúria. Parou. Pensou. Talvez não fosse aquilo que ela desejava, caso contrário, não se importaria se o fizessem.
Respirou fundo e pensou que talvez estivesse a ter um ataque de desespero e que se poderia estar a precipitar. Caiu em si. Deixou a consciência aterrar na sua pessoa. Ouviu vozes doces que soavam do local onde o mar e o céu se encontram. Admirou a beleza do olhar mais profundo que lhe ofereceram e recordou momentos em que lhe deram as mãos e não a deixaram cair. Valia a pena por estas pessoas, não as queria fazer sentir miseráveis, que todo o seu apoio fora em vão. Por outro lado, sentia que não era desejada noutros lugares.
O desgosto voltou a invadir-lhe o ser. Essas pessoas que lhe deram as mãos estariam cá para se apoiarem e haveria, certamente, mais gente para os fazer sorrir (melhores do que ela nessa tarefa, segundo o seu pensamento).
Só queria ouvir a voz do seu filho mais uma vez, sentir-lhe o perfume dos cabelos encaracolados… e faltava tempo para isso!
Deu um passo em frente e colocou todo o seu peso e força no seguinte. Caiu. Mais morta do que viva. E sentia já o aroma de algodão doce que ficava colado às maçãs do rosto do seu rebento.
Caramba, era longe! O tempo que sucedeu não passou de alguns segundos, todavia pareceram-lhe horas! As gotas de água salgada que fugiam do embate forte e violento das ondas na falésia colavam-se-lhe no rosto e os raios dourados do sol tardio faziam-nas brilhar, como diamantes, nas suas pestanas negras e pesadas de tristeza e nos seus lábios já sem cor.
Por fim, sentiu! E não se arrependeu.
O seu corpo, dolorido e estarrecido pelas batalhas em vida, caiu. Embateu em rochedos. Uma onda cinzenta engoliu-o para as suas entranhas. A sua alma, essa, já se encontrava a sorrir com o seu fruto! 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

...


Às vezes, só é preciso um empurrão (e) de umas palavras para conseguires relembrar a chama da tua paixão que se apaga em dias de nevoeiro e que dói a acender no Inverno que há em ti!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Retrato


Era um retrato. Um retrato de uma pessoa muito querida. Emitia uma luz, um brilho, um não sei quê de frescura de felicidade. Um mistério indecifrável nascia naqueles olhos azuis, viajando por entre as partículas da atmosfera até mim, penetrando na minha mente e contando-me histórias fantásticas. Eu olhava, ouvia e sonhava. Aquela postura elegante sobrepunha-se a tudo naquela sala. Os brincos e o gorro sobressaíam pela beleza natural que possuíam. A boca, de lábios finos e encarnados, repousava no rosto seriamente inclinado. O cabelo, de cor imperceptível, caía genuinamente pelo pescoço esguio e perfumado. Toda ela constituía um protótipo de contadora de História(s) rodeada pela magia da paixão. As folhas verdes que a envolviam na tela davam um toque natural e espontâneo à pintura! Acho que a beleza, quando existe, existe para todos! Só os mais distraídos não a vêem!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Quero ser poeta


Quero ser poeta!
Os poetas cheiram a papel e respiram palavras. Eles caminham em passeios de livros e navegam em mares de tinta. E sonham! São sonhadores que vivem felizes com as letras. Sem elas as suas vidas não seriam vidas. Seriam existências em vão. Ou então vidas mortas.
Quero ser poeta, porque os poetas sentem. Sentem tudo... o branco, o negro, o cinzento e o arco-íris. Depois, desenham no papel a dor que sentem e pintam a felicidade que alcançaram. Por vezes, conseguem riscar um passado ou rabiscar um futuro, mas nunca um presente pois tudo o que agora sente, o já não sente da mesma forma e intensidade no momento em que escreve. Conta portanto um passado mais ou menos longínquo ou um futuro mais ou menos inventado.
Quero ser poeta, porque os poetas não morrem. As linhas encantadas que eles criam tornam-se imortais nas páginas incrivelmente brancas e puras. Se uma folha for rasgada em bocadinhos, mesmo que esses bocadinhos sejam do tamanho de um átomo de hidrogénio, nunca deixará de conter escrito tudo o que a alma calorosa lá esculpiu. Se uma folha for queimada, nas cinzas descansarão as doces palavras, ou voarão eternamente as mais ousadas.
Quero ser poeta, porque os poetas são infinitos. As suas almas são diferentes. Não sei dizer o que têm a mais ou a menos que os outros homens, mas têm algo diferente. Talvez tenham sido tocados pela magia ainda desconhecida do cosmos. Sim, magia e sim, do cosmos, porque de cosmogonia sabemos todos pouco ou quase nada, apesar de alguns acharem que muito sabem. Ser poeta não é algo que se explique com teorias e teoremas. É preciso compreender com o coração o intangível do nosso ser. Ser poeta não é explicar. É sentir. É contar. E é ser.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Asas de Vento

   

E lá estava ela! No seu glorioso manto celestial, a voar de forma sublime, como que um guerreiro ilustre, antes do confronto com os inimigos. A brisa primaveril deslizava-lhe pelo bico de bronze e acompanhava o voo das suas asas brancas, cinzentas e sujas de sal proveniente das gotículas de água que se lhe entranhavam nas penas, aquando da sua pesca de alimento (por vezes, manchado pelo óleo negro, espesso e mortal espalhado pelo Homem, no grande lago único) para garantir a sua sobrevivência.
    A tranquilidade do oceano levava-a a nadar calmamente pela ondulação do alto mar, para que o seu espírito recolhesse aquela serenidade e brancura do clima marinho e apreendesse aquele som da boca do mundo a marulhar, a roncar, certas vezes, quando se zangava com as nuvens e provocava as lágrimas do céu, os gritos de desespero e preces do horizonte manchado pela tristeza, quase invisível aos nossos olhos.
   A maresia libertada pela espuma esbranquiçada no rebentar das ondas azuis e brilhantes preenchia também parte da essência da gaivota.
    O seu piar, esganiçado e alterado pelo ambiente silencioso em constante movimento, era testemunha da existência de lugares assim, como aquele, de certa forma paradisíacos.
    A areia dourada nascida nas arribas altas e majestosas da falésia e as restantes rochas com semelhante berço constituíam o porto de abrigo dessas aves.
    Um dia de inverno, esta criatura levantou voo, cansada de si, velha do mundo e extasiada do mar. Foi a última vez que o fez. Foi a última vez que voou! A ela parecera-lhe normal, uma manhã cinzenta e nebulosa, tal como todas as manhãs de uma estação fria e triste, onde o sol se esconde entre as brumas da vida. A meio do seu percurso algo falhou. Sentiu-se cair, sem dor nem alegria, apenas caindo, com aquela normalidade de algo que se desvanece, como se soubesse que chegara a sua hora e que a escuridão da morte a seguraria antes de sentir o seu corpo gélido da água do mar na sua queda! Como se conhecesse o ciclo da vida de um ser vivo temporário neste local pequeno e (des)conhecido.
    Adeus, Asas de Vento! Desfruta desse teu voo que é agora infindo e deixa a tua alma ecoar no mundo dos não vivos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Um sonho é sempre um sonho... e quando é escrito sempre nos parece mais real!


Cheguei à escola. É o meu primeiro dia de trabalho. Os miúdos correm e conversam sobre as férias. Anseiam pela primeira aula para saber quem é o professor. Vozes de crianças e adolescentes invadem o ambiente com que sempre sonhei. As vozes de Amanhã. Muitos Amanhãs. Farei parte de alguns deles. E isso faz-me tão feliz!
Chego à sala de professores tão ansiosa como no primeiro dia de aulas na faculdade. Estudei no Porto. Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na cidade onde nascem as musas de poetas fantásticos. Ali nasci, ali fiquei. Não tive coragem de abandonar o Douro quando iniciei o meu percurso académico! Hoje, teve de ser. Saí do meu berço inconfundível e incomparavelmente maravilhoso. Fiz as malas há uma semana e viajei até à capital. Mas sinto-me deslocada, como se o Porto se tivesse evaporado e eu já não o pudesse ver mais. Lisboa é uma cidade bonita, mas o Porto é a minha paixão. O Tejo é brilhante, mas o Douro é a luz da minha alma.
Os mais velhos olham para mim por ser uma cara nova. Os mais novos também olham mas mais timidamente. Cumprimento alguns, dizendo um «bom dia» alegre, apresento-me a outros, tentando encontrar os restantes professores de Língua Portuguesa da escola.
Ainda um pouco atrapalhada, tentava encontrar o livro de ponto do 9ºE - a minha primeira turma do meu percurso profissional. O programa era o mais interessante de todos os anos. Continha matérias mais aprofundadas e só gostava da disciplina quem realmente gostasse de Português.
Antes do toque, dirigi-me para a sala, para não me atrasar, pois ainda não conhecia muito bem os cantos à casa.
A campainha solta um grito estridente e ouvem-se, automaticamente segundos depois, passos apressados, uns mais entusiasmados do que outros, a subirem as escadas. Depois as cadeiras a arrastarem no chão, ao contrário daquilo que o professor ordena (e continuará a ordenar, mas sempre sem efeito...). Para certas coisas, não há remédio! Os primeiros alunos entram, sentam-se nas primeiras carteiras, e muito acanhados, dizem «bom dia». Caramba, eu não faço mal! Eu também era assim? Riram-se! É um bom começo... tentar criar laços. Não é a meter medo que lhes vou enfiar Camões na cabeça, muito menos na alma!
A aula foi produtiva. Acho que eles gostaram de mim e eu, pelo menos, gostei deles. É uma turma simpática, apesar de conversadora... resta saber se trabalham bem. Tenho a sensação de que se vai descobrir um ou outro talento na escrita. Vou insistir nesta actividade como tarefa extra e facultativa semanal, contribuindo obviamente para o aproveitamento. Acho importante fazê-lo porque às vezes nem eles próprios sabem que gostam de escrever! Eu, professora Carolina, de Língua Portuguesa, hei-de ensinar as almas a (en)cantar o mundo em versos. Hei-de mostrar aos miúdos que a prosa é o que nos faz cair e o que nos faz levantar. São as palavras em linha recta que movem mundos!
Numa turma, há sempre um leitor compulsivo... mal posso esperar para descobrir qual deles é!
*fictício (escrito em Maio de 2010)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Viagens de um dia


Gostava de viajar. Muito, muito, muito!
Se um dia puder, adorava, antes de conhecer o Mundo, conhecer a Europa e, antes de conhecer a Europa, conhecer Portugal de uma ponta à outra, como a palma da minha mão!
Temos um país tão bonito!
Gostava mesmo de me pôr à estrada, com duas mochilas, máquina fotográfica e blocos de notas. Conhecer as maravilhas lusitanas antes de partir em descoberta de terras estrangeiras. Ter uma espécie de diário gráfico onde registar o que se vê, o que se cheira e o que se come, os costumes e as tradições de cada cantinho. Gravar paisagens e locais paradisíacos que quase ninguém conhece e que recordaremos um dia com nostalgia! Visitar todos os alfarrabistas e mais alguns de todas as regiões... Enfim, levar comigo «portuguesices» e deixar lá «pedacinhos de Carol»!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Homens de guerra


Ouvi uma história... uma história cheia de amargura dos tempos remotos, que nasceu no berço da guerra.
Comecei por ouvir serenamente as palavras que a descreviam, mas a gradação da intensidade dos acontecimentos terrivelmente temidos ia aumentando a minha ansiedade. Em certos momentos pensei mesmo estar lá, presente no maior monstro de toda a História da Humanidade. Mas não! Era apenas uma ilusão, fruto da imensa capacidade de contar histórias do meu avô.
Bravos guerreiros lutavam pela sua vida, mas com maior êxtase pela sua pátria. Ouviam-se gemidos, gritos e ruídos por todos os lados… O soprar das flechas e o estrondoso magnífico cavalgar dos cavalos de guerra arrepiavam-me! Os sons bélicos eram diversos e incontáveis, capazes de fazer adormecer eternamente várias centenas de soldados. Os infinitos crepúsculos e as inacabáveis auroras pareciam ser cada vez mais encarnados, tingidos pelo sangue derramado por gloriosos homens cuja coragem e fé eram infindas. As noites eram negras como o medo. Os dias eram cinzentos e nebulosos cheios de poeira de corridas, lutas e batalhas. As trincheiras inundavam-se de mágoas, saudade e da pior criatura criada pela imaginação – o ódio!
Os soldados e cavaleiros equipados com elmos, escudos e espadas combatiam arduamente tentando alcançar a vitória definitiva. No entanto, aquele pesadelo parecia não ter fim… Muitos deles estavam já lânguidos e macilentos!
Finalmente, numa madrugada diferente de todas as outras, ouvira-se o som da corneta que anunciara o final tão esperado. Nem vivalma se mantinha em pé! Alguns ciciavam para si mesmos, agradeciam desesperadamente, como se não houvesse amanhã, rezando, por estarem vivos. Depois, alguns desabafos tão duros e severos! Enquanto aqueles que restavam dos derrotados voltavam para as suas origens, os vencedores, homens verdadeiramente patriotas, celebravam a vitória esplendorosa!

Coração de Mar


    Os seus olhos azuis e brilhantes cintilavam como duas pérolas no seu rosto velho, enrugado e queimado pelo sol. As suas mãos, tratadas como o rosto, pareciam chorar e gritar ao vento pelo repouso. Ele não as ouvia, tinha os ouvidos tapados por preocupações e previsões. A sua boca salgada deixava escapar no marulhar confuso das ondas cantigas perdidas no tempo e assobios de avô!
    Havia noites em que se deixava engolir pela boca do mundo, no seu barco «Ulisses», tendo lutas incontáveis com o maior monstro da Terra. Sempre disse que, se nasceu no Mar, haveria de lá morrer também. Acrescentava ainda (como gente sábia) que, apesar das longas, duras e negras batalhas travadas com ele, não deixaria de ser o seu melhor companheiro. Afinal, a sua vida tinha sido dedicada a tal natureza.
Passava crepúsculos e auroras, perdido na «intemporalidade» e na imensidão do Nada (ou do Tudo!), olhando para a linha que separa o céu do mar e para o sol e para a lua que chegavam a partilhar o céu amigavelmente. As restantes estrelas, essas, apareceriam mais tarde, quando o escuro da alma da noite decidisse aparecer.
    Depois, o trabalho! Trabalho árduo: lançar as redes. Esperar. Retirá-las mais pesadas do que aquando do seu lançamento. Separar o peixe… O odor horrendo do alimento saudável tinha-se agarrado de tal forma ao seu nariz que a sua presença lhe era já indiferente.
    Perguntei-lhe, depois destes minutos observadores, se não estava cansado. E ele, com marcas do tempo no rosto de variadas formas, respondeu-me que sim, que às vezes desejava adormecer no barco e acordar em lugar algum diferente.
    Homem triste este Coração de Mar!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Está lindo!


Tão colorido que nos faz querer entrar lá e cantar e viver com eles!

Mariposa


   Abriu as asas. Voou sublimemente. Pousou na dourada poeira de pólen de uma margarida, devagar. Sem pressas nem stress. Sem a fadiga que os humanos sentem para chegar a todo o lado, a toda a hora! Apenas com calma, serenamente. Depois, voltou a voar (desta vez, com as suas patas minúsculas cheias de um néctar sumarento).
   Encontrou então uma andorinha que levava no bico alimento para as suas crias e decidiu perguntar-lhe qual a sensação de voar com tal rapidez e perspicácia. Ela respondeu-lhe com um sorriso (seja como for o sorriso de uma andorinha, pois não consigo imaginar uma curva, num bico, que tenha o poder de melhorar o mundo) que o mais belo que essa capacidade lhe podia oferecer era conseguir ver o infinito do horizonte, quer no nascer, quer no pôr-do-sol. Conseguir distinguir o céu do mar, numa quente tarde de Verão! Acrescentou ainda que não menosprezasse as suas, pois Deus dá todo o tipo de asas: as que servem para voar (lenta ou rapidamente) e as que servem para sonhar…